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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

Mar Português - Mensagem/Fernando Pessoa

Avatar do autor António Góis, 23.05.20

fernando pessoa.jpg

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!


Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.


Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa/Mensagem

 

Italo Calvino a 0,90 Quilómetros por dia

Avatar do autor António Góis, 21.05.20

Vinte e dois dias depois de ter feito a encomenda, chegou finalmente a casa (via ctt) o primeiro livro encomendado durante a quarentena. Trata-se de Um Eremita em Paris, de Italo Calvino, autor muito cá de casa, mas que por qualquer misteriosa razão estava em falta no que a este volume diz respeito.

Italo Calvino, um eremita em Paris.jpg

   Não faço ideia por onde andou durante este tempo, nem porque levou vinte e dois dias a percorrer cerca de vinte quilómetros, mas se Calvino andou por estes dias a passear por Portugal, certamente que escolheu mal a altura. Contas feitas, andou menos de um quilómetro por dia.

Das informações que tinha sobre o livro, deduzi não se tratar de uma autobiografia, pelo menos não uma autobiografia no sentido literal a que estamos habituados. Mas Calvino nunca desilude, e por isso avancei para a compra.

O volume podemos dividi-lo em três partes, sendo que na primeira temos as Páginas Autobiográficas, na segunda Um Eremita em Paris, e na terceira a sua experiência americana, intitulada Diário Americano.

O Diário Americano está escrito em forma de cartas, e versa sobre a viagem de Calvino na américa entre novembro de 1959 e maio de 1960. Confesso que de todo o livro, esta foi a parte que mais me fascinou.

Calvino era um tipo que pensava e repensava as coisas. E, se em princípio jurara nunca escrever um livro sobre a América, a lucidez acabaria por vencer e acabou por o escrever em forma de diário. Mas, pensando melhor, decidiu não o publicar. Calvino, que não era fã do capitalismo americano, assumiu mesmo a sua militância no partido comunista italiano, muito embora por alturas desta viajem já o tivesse abandonado.

Os textos sobre a América, ficariam assim guardados até depois da sua morte em 1985.

São sobretudo textos de uma lucidez assombrosa, ora severos, ora irónicos, mas também não raras vezes benéficos. Neles Calvino relata as suas impressões sobre o modo de vida americano, analisa as cidades por onde vai passando, (ficou sobretudo encantado com a cidade de Savannah, chamando-lhe mesmo a mais bela cidade dos Estados Unidos), fala da cultura americana e das pessoas com quem contacta, e chega mesmo ás vezes a pôr em causa a sociedade americana.

O diário encontra-se também publicado em volume próprio pela Dom Quixote, e intitulado, Um Otimista na América.

Afirma Pereira - António Tabucchi

Avatar do autor António Góis, 19.05.20

Afirma Pereira tê-lo conhecido num dia de Verão. Um magnífico dia de Verão, cheio de sol e de vento, e Lisboa resplandecia. Ao que parece, Pereira estava na redacção, não sabia que fazer, o director estava de férias, e ele via-se com o problema de preparar a página cultural, pois o Lisboa passara a ter uma página cultural, e tinham-lha confiado. E ele, Pereira, reflectia sobre a morte.

Afirma Pereira.jpg

Naquele belo dia de Verão, com a brisa atlântica acariciando as copas das árvores e o Sol a brilhar, com uma cidade que cintilava sob a sua janela, e um azul, um azul incrível, afirma Pereira, de uma limpidez que quase feria os olhos, ele pôs-se a pensar na morte. Porquê? Isso, Pereira não sabe dizer.

Fosse porque o pai, quando ele era miúdo, tinha uma agência funerária que se chamava Pereira A Dolorosa; fosse porque a sua mulher morrera tísica uns anos antes; fosse porque era gordo, sofria do coração, tinha a tensão alta e o médico lhe dissera que se continuasse assim não durava muito, o facto é que Pereira se pôs a pensar na morte, afirma.

E por acaso, por mero acaso, pôs-se a folhear uma revista. Era uma revista literária, que no entanto tinha também uma secção de filosofia. Uma revista de vanguarda, talvez, disto Pereira não tem a certeza, mas que tinha muitos colaboradores católicos. E Pereira era católico, ou pelo menos naquele momento sentia-se católico, um bom católico, mas havia uma coisa em que não conseguia acreditar na ressurreição da carne. Na alma sim, claro, porque tinha a certeza de possuir uma alma; mas toda a sua carne, aquelas banhas que envolviam a sua alma, pois bem, essa não, essa não voltaria a reviver, e também porquê?, interrogava-se Pereira.

Afirma Pereira / António Tabucchi - 1994

 

Os livros incompletos

Avatar do autor António Góis, 17.05.20

Ao longo dos tempos, muitos foram os escritores que a morte surpreendeu enquanto trabalhavam num livro. Algumas das obras seriam terminadas por outros autores e publicadas. Outras, seriam publicadas mesmo como os autores as deixaram.

Abaixo seguem alguns exemplos de livros que ficaram incompletos por morte dos respectivos autores.

Charles Dickens (1812-1870) trabalhava num livro quando morreu. Era o seu primeiro policial, tinha o título de O Mistério de Edwin Drood e ficou incompleto com a morte do autor. O livro tratava de um triângulo amoroso, do vício das drogas, assédio sexual e crime. Tratando-se de uma história de crime, com a morte do autor ficou o mesmo por desvendar. Mas, houve um jovem Americano que dizendo que o espirito de Dickens havia descido até ele, tratou de acabar de escrever o livro. O mesmo encontra-se pois publicado, embora nunca tenha sido reconhecido pela comunidade literária como um verdadeiro livro de Dickens.

Quando morreu aos 44 anos, Robert Louis Stevenson (1850-1894) estava a trabalhar num livro que havia anunciado ser a sua obra-prima. Tinha o título de Weir of Hermiston e viria a ser publicado em 1896. Stevenson teria deixado um esboço com o final do mesmo. Tratava-se de uma história de confronto entre Pai e filho, passada em Edimburgo e tem como pano de fundo as guerras Napoleónicas.

Franz Kafka (1883-1924) uma das maiores influências literárias do seculo XX, deixou entre outras obras, um romance por terminar. O Castelo, que viria a ser publicado em 1926. O livro termina a meio de uma frase precisamente quando um novo personagem entra em cena.

Também em Portugal houve escritores que deixaram obras incompletas.

Jorge de Sena (1919-1978) quando faleceu deixou inacabado um dos maiores romances do seculo XX Português, Sinais de Fogo, que acabaria por ser publicado no ano seguinte à morte do autor. Publicado evidentemente apenas a parte que Jorge de Sena havia escrito, ao que se sabe tencionava ainda escrever outro tanto. Sinais de Fogo é um romance autobiográfico, passado em Lisboa e na Figueira da Foz e com ramificações à guerra civil Espanhola.

José Saramago (1922-2010) também deixou por terminar um livro quando do seu falecimento. Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, narra a  história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século 20. O livro foi publicado em 2014 quatro anos após a morte do autor.

Outros autores como Gustave Flaubert, John Steinbeck, Jane Austen ou Albert Camus, deixaram também obras incompletas.

Autor Português João Cerqueira Premiado nos Estados Unidos

Avatar do autor António Góis, 16.05.20

João Cerqueira, autor com várias obras publicadas em Portugal e traduzidas lá fora, acaba de ganhar nos Estados Unidos o prémio INDIE READER AWARD'S 2020 na categoria Humor.

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   O livro premiado, A Segunda Vinda de Cristo à Terra, foi editado em Portugal pela editora Estação Imaginária em 2015, e nos EUA traduzido como, Jesus and Magdalene e publicado pela editora Line by Lion Publications.

Sinopse: Para a sua segunda vinda à Terra, Jesus não podia ter escolhido um lugar melhor: Portugal. Depois de conhecer a ativista Madalena - que luta por um mundo melhor -, Jesus vê-se envolvido em situações de conflito. Vai conhecer os ''ecologistas radicais'' que o obrigam a confessar-se, um autarca corrupto, empreiteiros sem escrúpulos, um comandante da GNR forçado a fazer de Pilatos, habitantes de bairros degradados, um bruxo. A Segunda Vinda de Cristo à Terra aborda fenómenos de conflitualidade social e política que ocorrem no nosso país. De forma crua e inteligente, o autor conduz o leitor por uma história fascinante onde… no fim... é Portugal que acaba na cruz.

Sobre o autor: João Cerqueira é doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto. É autor de vários livros. A segunda vinda de Cristo à Terra, A culpa é destas liberdades, A Tragédia de Fidel Castro (publicado nos EUA com o título The Tragedy of Fidel Castro), As reflexões do Diabo, Arte e literatura na guerra civil de Espanha, Maria Pia: rainha e mulher, José de Guimarães (publicado na China pelo Today Art Museum), José de Guimarães: Arte Pública.

The Tragedy of Fidel Castro venceu USA Best Book Awards 2013, o Beverly Hills Book Awards 2014, o Global Ebook Awards 2014, foi finalista do Montaigne Medal 2014 (Eric Offer Awards), foi finalista do Wishing Shelf Independent Book Awards 2014, e foi considerado pela revista ForewordReviews a terceira melhor tradução publicada nos EUA em 2012. Além dos EUA, está publicado na Itália pela Leone Editore, no Reino Unido pela Freight Books, na Argentina pela Eduvim e em Espanha pela Funambulista. Foi adaptado para o teatro nos Estados Unidos.

A segunda vinda de Cristo à Terra venceu a medalha de prata do 2015 Latino Book Award, a medalha de prata no 2016 Hungry Monster Book Awards, foi eleito livro do ano 2016 pelo Latina Book Club e foi considerado um dos melhores livros publicados em 2015 pelo unheard-voice.blogspot. Está publicado nos EUA pela Line by Lion Publications. Em 2017 foi publicado em Espanha pela Funambulista.

Em 2019 saiu em Portugal o livro, 25 de Abril Corte e Costura, editado pela Ideia - Fixa.

Página do autor: www.joaocerqueira.com