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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

Nas Trevas, com Conrad

Avatar do autor António Góis, 14.05.20

O Coração das Trevas (The Heart Of Darknes) foi publicado em Inglaterra como livro em 1902. Antes, havia sido publicado em três capítulos na revista Blackwood Edinburg Magazine, em 1899. O livro, ainda hoje considerado por alguns sectores da sociedade como uma escrita colonial e racista, tem evidentemente que ser lido e pensado como um produto da época em que foi escrito, uma vez que a narrativa se situa no final do Sec. XIX em África, mais precisamente no Congo.

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   Por esta altura (finais do Sec. XIX) o Império Britânico era o maior em todo o mundo, dando ênfase à célebre frase «O império onde o sol nunca se põe».

Estávamos então na Era Vitoriana, que viria a terminar em 1901 com a morte da Rainha Vitória e embora a narrativa se situe no Congo, na altura uma colónia da Bélgica, as condições de colonização eram semelhantes.

No que respeita às acusações de racismo, lendo o livro (este e outros de Conrad) e conhecendo minimamente a história do autor, facilmente se constata tratar-se antes de uma crítica ou mesmo denúncia do imperialismo. Basta ler logo nas primeiras páginas uma das frase de Marlow (o narrador). «Aquela gente não tinha lá grande préstimo. Não eram colonizadores, ao que suponho o seu império era espremer e mais nada».

Joseph Conrad (1857 – 1924) nasceu na Ucrânia, filho de um casal de Polacos no exílio. Tendo os pais falecido cedo, foi o jovem Conrad criado na Polónia por um Tio. Aos 17 anos viaja para Marselha e inicia a carreira de marinheiro. Com 21 anos sabia falar e escrever Inglês fluentemente, tornou-se Capitão de um navio e em 1886 conseguiu a nacionalidade Britânica. Em 1890, depois de correr meio mundo Congo incluído, abandonou a Marinha e ficou a viver em Inglaterra dedicando-se a tempo inteiro à literatura.

Nos primeiros anos escreveu sobretudo contos e folhetins para revistas e jornais. O seu primeiro romance, Almayer'Folly, só foi publicado em 1895, a que se seguiria An outcast of the islands (1896) e The Nigger of the  Narcissus ( O Negro do Narciso) em 1897. O Coração das Trevas saiu então em formato de livro em 1902, no mesmo ano em que Arthur Conan Doyle publicava também em Inglaterra O Cão dos Baskervilles, e um ano depois de Thomas Mann ter lançado na Alemanha Os Buddenbrooks.

Na altura, em Portugal quase tudo girava ainda à volta de Eça de Queiroz, falecido em 1900, e muitos dos seus livros estavam agora a ser publicados a título póstumo. Assim em 1901 saiu a Cidade e as Serras e em 1902, o volume Contos.

No Brasil era publicada a obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, uma epopeia Sociológica, Geográfica e Histórica sobre o Sertanejo. Mas de que trata a narrativa de Coração das Trevas? Toda a história gira à volta da misteriosa figura de Kurtz, um comerciante de marfim que se encontra no coração de África, mais propriamente no Congo. Kurtz é para os locais como um Deus, e para os de fora, uma figura mística. Para narrador, Conrad inventa um personagem, Marlow, um verdadeiro alter-ego.

Marlow, segundo Conrad, era um marinheiro meio vagabundo, que fazia dos navios a sua casa e do mar a sua terra. E é este alter-ego de Conrad que conta a história aos marinheiros, ali mesmo no estuário do Tamisa enquanto esperam que a maré encha e permita a partida do Nellie, um navio de recreio onde se encontram.
 
Marlow conta então aos marinheiros a viagem que o levou até esse singular mundo de trevas, em pleno Congo onde iria resgatar Kurtz.
 
Mas, para chegar a Kurtz era preciso subir o rio, e para Marlow subir o rio era como viajar para trás, até às primeiras idades do mundo. Uma pessoa perdia-se naquele rio como num deserto. É ao longo desta viagem que Marlow contacta com as trevas do título, patentes no coração dos homens que haviam colonizado não só a terra mas também as gentes. Miséria, exploração e morte, são o lado negro que Marlow encontra ao longo desta viagem.
 
Todo o drama se desenrola na floresta, mas, ao mesmo tempo, vai-se desenrolando também na mente do narrador e é sobretudo uma reflexão acerca da natureza humana. O Coração das Trevas é um livro que se lê depressa, mas que leva muito tempo a esquecer, se é que se consegue esquecer.
 
Conrad costumava dizer: esta e outras histórias, foi tudo o que trouxe de África.

Fantasia para dois coronéis e uma piscina

Avatar do autor António Góis, 11.05.20

Editado pela Caminho em 2003, este Fantasia para dois Coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho, viria a ganhar o prémio do PEN Clube Português para o melhor romance desse ano.

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   Nesta obra do início do século XXI, Mário de Carvalho faz um ajuste de contas com o século XX Português, deixando fluir aquilo que é tão natural nele, uma prosa ora irónica, ora fantasiosa, chegando mesmo às vezes a roçar o surreal ou a fábula, como os diálogos entre o mocho e o melro.

No livro, o centro do País é o Alentejo, o cenário é uma piscina e os personagens dois Coronéis na reforma. O Alentejo aqui representará o cair do pano para os Coronéis, ambos veteranos de campanhas em África, a retirada das ex-colónias e o fim do império.

A piscina será um mero pretexto, num local por tradição sem água eles insistem em recordar que foi através do mar que Portugal se fez grande. O cenário dá pois pano para mangas, e os Coronéis não se fazem rogados nos mais inimagináveis diálogos saídos do imaginário fantasioso de Mário de Carvalho.

Mais ícones do século XX surgem no romance, há uma claque de futebol que destrói uma estação de serviço, e há o personagem Emanuel Elói, vedor de água e artista de xadrez, que no seu Renault 4 percorre a região Alentejana partindo corações femininos. Mas a crítica mordaz (satírica) ao Portugal do século XX continua num autêntico desfile quer de diálogos, situações ou personagens, como a cantora pimba ou empreiteiro pato bravo.

 Através do humor e da ironia, Mário de Carvalho vai neste Fantasia para dois Coronéis e uma piscina, mais uma vez criticando os costumes.

Dizia Alberto Caeiro «Da minha aldeia, vejo quanto da terra se pode ver do Universo…»

Dirão os dois Coronéis da história «Desta piscina vemos, quanto do império perdemos»

A última viagem de Steinbeck

Avatar do autor António Góis, 08.05.20

Corria o ano de 1960 quando John Steinbeck, então com 58 anos e já com graves problemas cardíacos, decidiu fazer a sua última viagem pela América.

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   Contra a vontade do médico, da mulher e do filho, comprou uma auto - caravana a que chamou Rocinante, equipou-a com o que julgou necessário para a viagem, assobiou ao cão, um poodle francês chamado Charley, e partiu de Long Island para uma viagem de 10.000 milhas. 

Durante a viagem, Steinbeck passou pelas mais diversas peripécias, conheceu pessoas e teceu considerações ou recordou histórias dos locais por onde ia passando. A viagem viria a dar um livro, Viagens com o Charley publicado pela Vicking Press em 1962, pouco tempo antes de receber o Nobel da Literatura.

Durante muitos anos este foi um dos meus livros de viagem preferidos e ainda hoje, de quando em vez, volto a ele para reler uma ou outra passagem.

Há uns anos atrás, tive conhecimento de que um jornalista chamado Bill Steigerwald, havia escrito um livro intitulado Dogging Steinbeck (2012) em que constatava vivamente os acontecimentos narrados no livro, sugerindo mesmo que alguns nunca teriam tido lugar.

Entre outros argumentos, Bill Steigerwald anunciava que Stenbeck se teria encontrado nalgumas partes do percurso com a mulher, teria dormido em Hotéis e que não teria sequer parado em muitos dos locais de que fala no livro. No seu livro, Steinbeck relata esses encontros com a mulher. Relata também as paragens nos Hotéis. O próprio diz também ter passado por alguns lugares sem parar, o que não o impediu de tecer algumas considerações ou contar uma ou outra história sobre esses mesmos locais.

Qualquer Português que passe, por exemplo em Guimarães, mesmo sem parar não se impedirá certamente de comentar «foi aqui que D. Afonso Henriques fundou Portugal». Ignoro se John Steinbeck fez ou não tudo aquilo que relata no livro. Se não parou nos lugares que cita, pelo menos documentou-se muito bem sobre eles. Já este Dogging Steinbeck, de Bill Steigerwald, que por acaso parece não estar publicado em Portugal, mais parece ter sido escrito por alguém com um ódio de estimação por Steinbeck e que buscou aqui os seus 15 minutos de fama.

Bater em alguém que havia falecido há 44 anos, não parece correto. No entanto, por 15 minutos de fama, há até quem bata no Pai e na Mãe.

A Sombra do Vento, ou o Paradigma dos Personagens Solitários

Avatar do autor António Góis, 06.05.20

O paradigma dos personagens solitários. Se existisse uma frase para definir um livro como A Sombra do Vento, ( Carlos Ruiz Zafón, 2001 ) seria certamente parecida com esta.

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   Mas livros deste calibre não se definem numa frase. São precisas mesmo muitas, para falar do Cemitério dos Livros Esquecidos, numa Barcelona onde os fantasmas da guerra espreitam nas nebulosas esquinas.

Escrito numa prosa que por vezes nos lembra os grandes mestres, (há aqui Dumas, há Poe e há sem dúvida algo de Vítor Hugo), existe no romance uma mistura de géneros que se encaixam tecendo uma história que se torna fascinante.

Tudo começa de madrugada, quando o pai leva Daniel Sempere com 11 anos ao cemitério dos livros esquecidos, uma espécie de biblioteca de obras abandonadas, e o rapazinho encontra ai um livro chamado A Sombra do Vento, escrito por um autor chamado Julian Carax. Começa aqui a busca por este autor misterioso que irá nortear a trajectória de Daniel durante a narrativa.

Paralelas á busca de Daniel por Julian Carax, movem-se outras histórias e outros personagens, às vezes transversais, às vezes paralelas no tempo.

É o caso do inspector Javier Fumero e de Fermín Romero de Torres, (um personagem ímpar na moderna literatura, herdeiro de um Sancho Pança) ambos em lados opostos da barricada, da história e da própria vida.

As personagens ímpares e o enredo apaixonante, fazem deste A Sombra do Vento um livro a ler e reler muitas vezes ao longo do tempo.

Não está ao alcance de qualquer escritor uma obra de tal envergadura, mas é por demais evidente que Carlos Ruiz Zafón não é qualquer um na arte do romance.

O início do livro é épico:
«Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos.»

Amazónia, de James Rollins

Avatar do autor António Góis, 05.05.20

Em Portugal, James Rollins é mais conhecido pelos seus livros da série Força Sigma, onde em cada romance se revelam mundos invisíveis, descobertas científicas e segredos históricos.

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   No Verão de 2019, chegou a Portugal um das suas obras fora desta série. Trata-se do livro intitulado Amazónia, e é uma daquelas obras que não conseguimos parar de ler até à ultima página.

Uma expedição científica embrenha-se no coração da exuberante floresta amazónica e desaparece sem deixar rasto. Do grupo fazia parte Gerald Clark, um ex-agente das Forças Especiais dos EUA que perdera o seu braço esquerdo na Guerra do Iraque. Subitamente, quatro anos volvidos, Gerald Clark reaparece. Saído da selva e a arder em febre, morre em poucas horas sem esclarecer como entrou naquele lugar selvagem apenas com um braço para de lá sair com os dois intactos.

Por isso, uma equipa de cientistas e de soldados, nomeados pelo governo dos Estados Unidos, é enviada para a Amazónia para desvendar o mistério que a reaparição de Clark colocava. Nathan Rand, filho do cientista que orientava a expedição científica, continua a manter a esperança de reencontrar o pai com vida. Essa expectativa reaviva-se quando Kelly O'Brien, membro da equipa de busca e salvamento, o convida para integrar o grupo e assim seguir o rasto do pai desaparecido.

Nas profundezas da selva, a natureza, e as suas mais imprevisíveis mutações, aguarda-os um mundo secreto de perigos inimagináveis...

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