Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

Pedro Paixão - Viver Todos os Dias Cansa

Avatar do autor António Góis, 30.06.20

Pedro Paixão, viver todos os dias cansa.jpg

   Sei pouco sobre as mulheres e cada vez sei menos. Nem sei – ou quando sei já é tarde demais – se gostam de mim e se isso acontece, não chego a saber o que possa querer dizer.

Há muitas maneiras de gostar, é verdade. Quando se gosta de um casaco, é ele o que  trazemos mais vezes. Com as mulheres é diferente. O que importa, acho eu, não é nem o que elas dizem, nem o que elas fazem, mas o que elas não dizem e pensam fazer. É preciso adivinhar e eu sou muito mau a adivinhar.

Depois, quando as coisas acabam e olhamos para trás, não ficamos mais elucidados. Sabemos contar aos amigos uma história que tem princípio meio e fim, mas que bem poderia ter sido outra.

Uma pessoa é um mistério, duas, com um abismo pelo meio, uma prodigiosa contradição.

Pedro Paixão, in Viver Todos os Dias Cansa /1995

Entrevista com o Escritor João Cerqueira

Avatar do autor António Góis, 26.06.20

Hoje temos uma entrevista com o escritor João Cerqueira, Doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto e autor de oito livros, muitos deles premiados no estrangeiro. Desde já, o meu muito obrigado ao João pela disponibidade.

João Cerqueira.jpg

Em países democráticos, o escritor tem muito menos liberdade hoje do que há cinquenta anos.

António Góis - Sendo Licenciado em História da Arte, e sendo a História um tema quase sempre presente nos seus livros, o porquê da opção de uma abordagem histórica satírica, por vezes quase a roçar o nonsense, em algumas das suas obras?

João Cerqueira – O humor e a sátira fazem parte de mim. Ideias cómicas ou totalmente disparatadas, ocorrem-me amiúde. É como se tivesse um pequeno teatro humorístico dentro de mim, do qual sou o único espectador. Por vezes, rio-me sozinho, desato às gargalhadas e sou tomado por tolo. Por um lado, suponho que deve ser algo genético, por outro fui muito influenciado pelos Monty Python, pelos livros de Woody Allen, pelos filmes dos irmãos Marx e por Raul Solnado. Da literatura nacional, também recebi influências de Camilo e Eça que se fartavam de gozar com o pagode que é o nosso país. Abro aqui um parêntesis para dizer que, desde então, o humor quase desapareceu dos romances. O Neo-realismo matou-o. Poderá parecer pretensioso, mas atrevo-me a dizer que poderei ser o único escritor português que tenta recuperar essa tradição humorística que remonta a Gil Vicente e é continuada por Bocage, os referidos Eça e Camilo, Fialho de Almeida, ou Almada Negreiros.

A literatura portuguesa é muito bem comportadinha. Há regras e proibições que todos cumprem. 

António Góis – Acha que na literatura contemporânea portuguesa, os autores escrevem apenas para o politicamente correto, talvez com algum receio de serem excluídos do meio?

João Cerqueira - A literatura portuguesa é muito bem comportadinha. Há regras e proibições que todos cumprem. Por exemplo, se houver um personagem racista tem de ser obrigatoriamente branco; e se houver um rico, lá terá que ter feito alguma patifaria no passado.

O politicamente correcto é, pois, um dos rostos do Fascismo do século XXI e o maior inimigo da literatura e do cinema. Impõe, sob pena de ostracismo, que é proibido criticar ou satirizar qualquer cultura que não seja a ocidental – a única, justamente, que não prende ou persegue escritores. Se alguém criticar a Igreja é um progressista, mas se criticar o Islão é um islamófobo; se criticar o Capitalismo, revela sensibilidade social; se criticar, por exemplo, o regime da Venezuela, revela preconceitos; se criticar o casamento tradicional, manifesta um direito democrático, se criticar o casamento entre homossexuais é um atrasado mental. Isto não é mais do que uma ditadura com objectivos políticos – o ataque à democracia liberal e ao sistema de mercado – que faz lembrar as perseguições da Inquisição.

Na verdade, já começa a haver um Índex de livros e filmes blasfemos e autores a expiarem publicamente a sua culpa. A mais recente vítima destes Torquemadas foi a escritora J. K. Rowling. Ela teve o desplante de afirmar que só as mulheres têm menstruação e que as diferenças sexuais existem – algo que a ciência provou acontecer mesmo antes do nascimento. Que horror! Resultado: os inquisidores do politicamente correcto lançaram-na na fogueira. Em países democráticos, o escritor tem muito menos liberdade hoje do que há cinquenta anos. É vigiado e autocensura-se.

António Góis - Hoje a maioria dos seus livros já estão editados em Portugal e presentes nas livrarias portuguesas. Mas nem sempre foi assim. Por norma eram primeiro editados lá fora, ganhavam um prémio e só depois chegavam a Portugal. Hoje em dia o processo já foi invertido? Sente que começa a ser mais fácil editar por cá?

João Cerqueira - Na verdade comecei por ser publicado em Portugal e só depois, com A Tragédia de Fidel Castro (adaptada ao leitor americano com Dom Afonso Henriques a tornar-se JFK) entrei no mercado internacional. O que me deixa perplexo é que eu – português e minhoto, com arroz de sarrabulho, chouriças e alvarinho nos livros – escrevi para os leitores nacionais e, depois, são americanos, ingleses, italianos, alemães, espanhóis, argentinos, brasileiros, filipinos e australianos que mais valorizam os meus livros e contos.

Tive e tenho dificuldades em ser publicado em Portugal. O meu último romance 25 de Abril, corte e costura só foi aceite e publicado pela Alêtheia de Zita Seabra. Porém, os livros que foram rejeitados em Portugal pelas principais editoras – A Tragédia de Fidel Castro e A segunda vinda de Cristo à Terra – venceram prémios nos EUA. Eis um grande mistério.

António Góis - Falemos de A segunda vinda de Cristo à Terra, que nos Estados Unidos venceu o prémio, INDIE READER AWARD'S 2020 na categoria Humor. Sendo Portugal um País onde a maioria das pessoas são católicas, será que a abordagem que faz das figuras de Cristo e Madalena poderão de alguma forma ter prejudicado as vendas e a promoção do livro no nosso País?

João Cerqueira - Uma figura da Igreja muito importante em Viana do Castelo pela sua obra social e humanismo, o Padre Coutinho, divulgou-o no seu jornal da paróquia. Mas não duvido que alguns católicos com pouco sentido de humor tenham fugido do livro como o diabo da cruz. Na verdade, gostaria que o livro fosse lido por cristãos pois, apesar do humor e de Jesus tomar um banho num riacho com Madalena, pretendi homenagear a sua figura.

Como muitos historiadores afirmaram, o Cristianismo está na base dos direitos humanos, da igualdade entre os homens e da democracia. Na antiga democracia grega havia metecos e escravos. Jesus liberta-os e liberta também as mulheres da submissão ao homem – o que não aconteceu no Islão e no Judaísmo. Ele é a figura mais importante da humanidade e, como refiro no romance, se voltasse de novo á Terra, puxaria as orelhas a muitos padres e bispos.

António Góis - Em algumas das suas obras, a abordagem histórica é feita de forma diferente. Falo de, Maria Pia: Rainha e Mulher, e Arte e Literatura na Guerra Civil Espanhola. Sente que há mais ou menos aceitação nesta abordagem dos temas?

João Cerqueira – Esses livros não são ficção. Pertencem a uma parte da minha vida onde andava à procura do caminho da escrita. Depois de ter escrito uma tese de doutoramento com 400 páginas, não deverei voltar a escrever mais nada que me limite a imaginação.

António Góis - Quando da edição da obra, 25 de Abril corte e costura, lembro-me que cheguei a ver o livro em destaque em algumas livrarias. Acha que esta foi a obra que lhe trouxe o reconhecimento merecido em Portugal?

João Cerqueira – 25 de Abril corte e costura teve críticas muito boas na revista Deus Me Livro, na revista Entre as Artes e Letras – por parte do Professor Carlos Fiolhais - e em todos os blogues que o avaliaram. Todavia, nenhum dos principais jornais ou revistas sequer o mencionou – apesar de terem recebido cópias do livro -, sendo o único romance português que aborda a questão política actual e os temas que dividem a sociedade.

 Há uma barreira mediática, à qual aludi na entrevista no CM, que só depois da recente vitória no Indie Reader Awards começa a ser derrubada. De novo pergunto: o que vai na cabeça de um jornalista que ignora os prémios e as publicações no estrangeiro de um autor português? Que critério é que está a usar?

António Góis – Muito obrigado pela disponibilidade e para terminar: Qual o livro que a seguir vai chegar ás livrarias, e para quando?

João Cerqueira – Estou a trabalhar num manuscrito de um género que é muito apreciado nos Estados Unidos, a História Alternativa.

Crio um país imaginário – a Eslávia – cujo regime ditatorial cai com a queda do muro de Berlim. Não se trata, porém, de um romance político. É, sim, um romance sobre a culpa, a vingança e a possível redenção. Ou seja, como reagem alguns seres humanos quando caem em desgraça e como reagem outros seres humanos quando deles se podem vingar.

Estou a tentar prender o leitor desde a primeira página. O que sucederá a um personagem que foi preso ou qual o desfecho de um conflito? Procuro o inesperado, a surpresa. E vou deixando pontas soltas que, mais tarde, são unidas. A atitude que um personagem toma na página vinte poderá só ser entendida na página cem. Mas, no fim, tudo deverá fazer sentido.

Rumo ao Farol - Virginia Woolf

Avatar do autor António Góis, 23.06.20

   

virginia woolf.jpg

   — Sim, é claro, se amanhã estiver bom — disse Mrs. Ramsay — mas vais ter de te levantar com as galinhas — acrescentou.

Ao filho estas palavras comunicavam uma alegria extraordinária, como se ficasse assente que a expedição iria realizar-se, e eis que o fascínio a que aspirara, talvez por anos e anos, se achava, após as trevas de uma noite e a travessia de um dia, ao alcance da mão.

Como pertencia, apesar de somente com seis anos de idade, a esse grande clã que não consegue manter uma sensação separada da outra, mas tem de fazer com que os projectos futuros, com as suas alegrias e as suas mágoas, envolvam o que realmente se encontra ao nosso dispor, como para gente assim, mesmo na primeira infância, qualquer volta da roda das sensações tem o poder de cristalizar ou transfixar o momento sobre o qual repousa a sua sombra ou sua refulgência, James Ramsay, sentado no chão a recortar figuras do catálogo ilustrado dos Army and Navy Stores, atribuía à figura de um frigorífico, enquanto a mãe falava, um êxtase celestial.

E a figura ficava circundada de alegria, o carrinho de mão, o aparador da relva, o rumor dos choupos, folhas que branqueavam antes da chuva, gralhas que grasnavam, vassouras que chocavam, vestidos de seda que rugiam — todas estas coisas lhe ficavam tão coloridas e distintas no espírito que já tinha o seu código privativo, a sua linguagem secreta, embora parecesse o retrato da severidade rígida e inflexível, com a testa alta e os cruéis olhos azuis, impecavelmente cândido e puro, levemente franzindo o sobrolho à vista da fragilidade humana, de tal forma que a mãe, vendo-o conduzir com destreza a tesoura em torno do frigorífico, o imaginava todo de vermelho e carmim no Bench, ou dirigindo um empreendimento sério e urgente em qualquer crise dos negócios públicos.
   — Mas — disse o pai, detendo-se defronte da janela da sala — não vai estar bom.

Virginia Woolf, in Rumo ao Farol / 1927

A Ocupação, de Julián Fuks

Avatar do autor António Góis, 19.06.20

Começaram a chegar pé ante pé, mas já se encontram nos locais do costume. Falo de novos livros, as editoras estão a recomeçar a editar e as novas edições já estão nas livrarias.

A Ocupação, de Julián Fuks.jpg

   A Companhia das letras, já tem nas livrarias o novo romance do Brasileiro Julián Fuks, vencedor do Prémio José Saramago e também do Prémio Oceanos. O romance chama-se A Ocupação e, é o sucessor de A Resistência, editado em 2015.

O mesmo narrador e o mesmo personagem, embora em A Ocupação, Julián Fuks alargue um pouco os horizontes e o autor dê mais liberdade criativa ao duelo narrador x personagem. Em A Ocupação, encontramos Sebastián sempre enredado nos seus dramas familiares que, ao mesmo tempo, são os dramas de um País à deriva que parece não ter salvação possivel.

Na presente narrativa, Sebastián, vagueia por São Paulo, rumo ao Hotel Cambridge, ruína de um prédio outrora grandioso e no presente ocupado por um grupo de sem abrigo. Este é o nucleo principal do enredo, sendo que a partir daqui divergem outros fios narrativos que obrigam à reflexão de alguns dos temas da sociedade actual.

Sebastián, atravessa agora um periodo trágico, toda a sua vida está em ruinas, a mulher não engravida, o pai está acamado num hospital, e isso leva-o a reflectir, por vezes até na própria politica e na sobrevivência do País.

Ao contrario de Resistência (2015), A Ocupação (2019) vai mais fundo, e no fim, embora ressalvando a qualidade da prosa de Julián Fuks, fica a impressão que de certa maneira, existe aqui um tanto ou quanto de manifesto social, já que o autor, embora afirme não querer fazer uma literatura militante, vive preocupado com a sociedade que o rodeia e isso reflete-se evidentemente na sua obra.

Uma curiosidade: O escritor Mia Couto, surge como personagem no romance.

 

Pág. 1/2