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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

Avatar do autor António Góis, 14.07.20

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   O atelier estava impregnado de um intenso perfume de rosas e, quando a ligeira brisa estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta aberta o cheiro forte dos lilases, ou o mais delicado odor do espinheiro róseo desabrochando.

Do canto do divã coberto de tecidos persas em que se estirava, fumando cigarro atrás de cigarro como era seu costume, Lord Henry Wotton vislumbrava apenas o brilho dos rebentos de um codesso da cor e doçura do mel, cujos ramos trémulos mal pareciam capazes de sustentar o fardo de uma tão fulgurante beleza; e, de vez em quando, as sombras fantásticas dos pássaros fugazes atravessavam as longas cortinas de seda selvagem estendidas frente à enorme janela, produzindo uma momentânea ambiência japonesa e levando‑o a pensar nesses pintores de Tóquio de pálidos rostos de jade que, através de uma arte necessariamente imóvel, procuram dar a impressão de ve‑
locidade e movimento.

O monótono murmúrio das abelhas zunindo entre a relva por aparar, ou circulando com uma fastidiosa insistência em redor dos espinhos empoeirados de ouro da madressilva rebelde, parecia tornar o sossego ainda mais opressivo. O distante bulício de Londres era como que o bordão de um órgão longínquo.

No centro da sala, assente num cavalete vertical, estava o retrato de corpo inteiro de um jovem extraordinariamente belo e, a uma curta distância, à sua frente, sentava‑se o próprio artista, Basil Hallward, cujo súbito desaparecimento alguns anos atrás provocara, na altura, muita celeuma e dera azo às mais estranhas conjeturas.

Oscar Wilde, in O Retrato de Dorian Gray / 1890

A Montanha Mágica - Thomas Mann

Avatar do autor António Góis, 10.07.20

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   No pino do Verão, um jovem simples partiu de Hamburgo, a sua cidade natal, para Davos‑Platz, no cantão de Graubünden. Ia de visita por três semanas.

De Hamburgo até àquelas alturas, é longa a viagem; demasiado longa, na verdade, para uma estada tão curta. Passa‑se por desvairadas terras, monte acima e monte abaixo, do planalto da Alemanha do Sul até lá abaixo, às margens do lago Constança, e, de barco, através das suas ondas saltitantes, atravessando gargantas antes tidas por intransponíveis.

A partir daí, a viagem que até então, se desenrolou com largueza, em linhas directas, torna‑se agitada. Há paragens e incómodos. Na povoação de Rorschach, em território suíço, toma‑se outra vez o comboio, mas só se chega, para já, até Landquart, uma pequena estação dos Alpes, onde se é obrigado a mudar de comboio.

O comboio para o qual se sobe, depois de bastante tempo à espera numa área ventosa e pouco atraente, é de bitola reduzida, e, no momento em que a pequena mas pelos vistos invulgarmente possante locomotiva se põe em movimento, começa a parte verdadeiramente aventurosa da viagem,uma subida abrupta e obstinada, que parece não querer ter fim.

É que a estação de Landquart situa‑se, comparativamente, ainda a uma altitude moderada; agora, porém, a viagem segue mesmo a sério por uma via agreste e medonha entre as escarpas, em direcção às altas montanhas.

Hans Castorp — é este o nome do jovem — encontrava‑se sozinho num pequeno compartimento forrado de cinzento, com a sua mala de mão de pele de crocodilo, um presente do seu tio e tutor, o cônsul Tienappel, para mencionar também este nome já aqui, o seu sobretudo, que balouçava pendurado num gancho, e a sua manta de viagem enrolada; ia sentado junto a uma janela aberta e, como a tarde ia ficando mais fresca, ele, filhinho da mamã e flor delicada, levantara a gola do
casaco de Verão, largo, segundo a última moda, e trabalhado em seda.

Thomas Mann, in A Montanha Mágica / 1924

O Grande Gatsby - F.Scott Fitzgerald

Avatar do autor António Góis, 07.07.20

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   Era eu muito mais novo e mais vulnerável do que sou hoje quando o meu pai me deu um conselho que desde então nunca mais me saiu da cabeça.

«Sempre que te apetecer criticar alguém», disse ele, «lembra‑te de que nem toda a gente neste mundo teve as mesmas vantagens que tu.»

E não acrescentou mais nada, mas como sempre tivemos, com toda a nossa reserva, uma invulgar capacidade de comunicar um com o outro, percebi que ele queria dizer muito mais. Ficou‑me, por conseguinte, uma tendência para reservar todos os meus juízos, hábito que me abriu as portas de muitas naturezas singulares e me tornou também vítima de não poucos maçadores profissionais.

mente anómala deteta e agarra com grande presteza esta qualidade, quando ela se manifesta numa pessoa normal, e foi assim que na faculdade me acusaram injustamente de ser um político, por estar a par das secretas angústias de tresloucados que nem sequer conhecia. A maioria das confidências não foi instigada por mim — não poucas vezes fingi sono, alheamento ou uma volubilidade hostil ao vislumbrar, por algum indício inequívoco, as revelações íntimas que se perfilavam no horizonte; porque as revelações íntimas dos jovens, ou pelo menos os termos em que eles as exprimem, são geralmente plagiadas e desfiguradas por evidentes omissões.

Reservar os juízos é uma questão de infinita esperança. Ainda hoje tenho um certo receio de deixar escapar alguma coisa se esquecer, como o meu pai presunçosamente sugeriu, e eu presunçosamente repito, que as noções básicas de decência são repartidas desigualmente à nascença.

F.Scott Fitzgerald

Rumo ao Farol - Virginia Woolf

Avatar do autor António Góis, 23.06.20

   

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   — Sim, é claro, se amanhã estiver bom — disse Mrs. Ramsay — mas vais ter de te levantar com as galinhas — acrescentou.

Ao filho estas palavras comunicavam uma alegria extraordinária, como se ficasse assente que a expedição iria realizar-se, e eis que o fascínio a que aspirara, talvez por anos e anos, se achava, após as trevas de uma noite e a travessia de um dia, ao alcance da mão.

Como pertencia, apesar de somente com seis anos de idade, a esse grande clã que não consegue manter uma sensação separada da outra, mas tem de fazer com que os projectos futuros, com as suas alegrias e as suas mágoas, envolvam o que realmente se encontra ao nosso dispor, como para gente assim, mesmo na primeira infância, qualquer volta da roda das sensações tem o poder de cristalizar ou transfixar o momento sobre o qual repousa a sua sombra ou sua refulgência, James Ramsay, sentado no chão a recortar figuras do catálogo ilustrado dos Army and Navy Stores, atribuía à figura de um frigorífico, enquanto a mãe falava, um êxtase celestial.

E a figura ficava circundada de alegria, o carrinho de mão, o aparador da relva, o rumor dos choupos, folhas que branqueavam antes da chuva, gralhas que grasnavam, vassouras que chocavam, vestidos de seda que rugiam — todas estas coisas lhe ficavam tão coloridas e distintas no espírito que já tinha o seu código privativo, a sua linguagem secreta, embora parecesse o retrato da severidade rígida e inflexível, com a testa alta e os cruéis olhos azuis, impecavelmente cândido e puro, levemente franzindo o sobrolho à vista da fragilidade humana, de tal forma que a mãe, vendo-o conduzir com destreza a tesoura em torno do frigorífico, o imaginava todo de vermelho e carmim no Bench, ou dirigindo um empreendimento sério e urgente em qualquer crise dos negócios públicos.
   — Mas — disse o pai, detendo-se defronte da janela da sala — não vai estar bom.

Virginia Woolf, in Rumo ao Farol / 1927

A Ocupação, de Julián Fuks

Avatar do autor António Góis, 19.06.20

Começaram a chegar pé ante pé, mas já se encontram nos locais do costume. Falo de novos livros, as editoras estão a recomeçar a editar e as novas edições já estão nas livrarias.

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   A Companhia das letras, já tem nas livrarias o novo romance do Brasileiro Julián Fuks, vencedor do Prémio José Saramago e também do Prémio Oceanos. O romance chama-se A Ocupação e, é o sucessor de A Resistência, editado em 2015.

O mesmo narrador e o mesmo personagem, embora em A Ocupação, Julián Fuks alargue um pouco os horizontes e o autor dê mais liberdade criativa ao duelo narrador x personagem. Em A Ocupação, encontramos Sebastián sempre enredado nos seus dramas familiares que, ao mesmo tempo, são os dramas de um País à deriva que parece não ter salvação possivel.

Na presente narrativa, Sebastián, vagueia por São Paulo, rumo ao Hotel Cambridge, ruína de um prédio outrora grandioso e no presente ocupado por um grupo de sem abrigo. Este é o nucleo principal do enredo, sendo que a partir daqui divergem outros fios narrativos que obrigam à reflexão de alguns dos temas da sociedade actual.

Sebastián, atravessa agora um periodo trágico, toda a sua vida está em ruinas, a mulher não engravida, o pai está acamado num hospital, e isso leva-o a reflectir, por vezes até na própria politica e na sobrevivência do País.

Ao contrario de Resistência (2015), A Ocupação (2019) vai mais fundo, e no fim, embora ressalvando a qualidade da prosa de Julián Fuks, fica a impressão que de certa maneira, existe aqui um tanto ou quanto de manifesto social, já que o autor, embora afirme não querer fazer uma literatura militante, vive preocupado com a sociedade que o rodeia e isso reflete-se evidentemente na sua obra.

Uma curiosidade: O escritor Mia Couto, surge como personagem no romance.