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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

O ano da morte de Ricardo Reis

Avatar do autor António Góis, 16.06.20

O Ano da Morte de Ricardo Reis.jpg

   Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias.

Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia.

Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o íntimo apelativo de vapor de família.

Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja essa a vontade de quem lá manda.

Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e parada de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde.

José Saramago, in O Ano da Morte de Ricardo Reis /1984

Top Livro

Avatar do autor António Góis, 12.06.20

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   Não sei se acontece o mesmo com mais alguém, mas volta não volta, dou por mim a consultar o top dos livros mais vendidos nas livrarias portuguesa. Não é por nada, mas um homem não é de ferro e ás vezes precisa de um pouco de divertimento.

E estes tops, são realmente um divertimento para quem gosta de literatura. Compreendo que as editoras ás vezes, (muitas vezes), precisem de editar livros assinados por jogadores de futebol, políticos e apresentadores de televisão. Fazem algum dinheiro com isso, o que lhes permite editar de quando em vez, um ou outro autor a sério.

A grande tendência actual para chegar ao top, parecem ser os livros que têm no título a palavra F***se.

F***se isto, F***se aquilo, e pronto, bestseller. Convenhamos que em Portugal não é preciso vender muito para ser bestseller. Quinhentos exemplares vendidos, e pimba, a editora grita bestseller.

Outro tipo de livros sempre presentes no top dos mais vendidos em Portugal, são os que têm no título a palavra Auschwitz. O Homem de Auschwitz, A Mulher de Auschwitz, O Gato de Auschwitz, O Cão de Auschwitz, O Carpinteiro de Auschwitz, O Canalizador de Auschwitz, etc. Acrescentar a palavra Auschwitz ao título, é sinal de lugar no top dos mais vendidos.

Os meus títulos preferidos são sem dúvida os dos chamados livros de auto-ajuda. Embora não leia os livros, não fico indiferente aos títulos. Só tenho pena que as capas sejam tão pouco imaginativas. Mas, o que se perde em imaginação nas capas, ganha-se nos títulos. Há para todos os gostos.

Exemplos: Como ser feliz embora casado, Como cagar no mato, Como iniciar o seu próprio país, Como fazer xixi em pé, A arte zen do peido, Até as princesas soltam pum, Como falar gatês, etc, etc. Parece que se vendem que nem pão quente.

 Enfim, há muitos géneros e cada um lê aquilo que quer. Fico por aqui.

Miguel Torga e o Senhor Ventura

Avatar do autor António Góis, 09.06.20

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Em tardes assim como as de hoje, cansado de esperar não sei porque milagre, desanimado diante do mapa do mundo que da parede me desafia desde a meninice, começo a pensar no Senhor Ventura. Na sua evocação mitigo durante algumas horas a dor que vai dando cabo de mim.

Não me resigno à ideia de ter vindo à luz neste tempo e numa terra durante Séculos inquieta de descobrir e saber, e depois tragicamente adormecida para tudo o que não seja olhar-se e resignar-se. Parece-me um castigo imerecido do destino e da história. Mas, como sou homem de impossíveis, salvo-me como posso.

Encho-me da lembrança mágica do Senhor Ventura, que nenhuma razão impediu de correr as sete partidas que chamam em vão por cada um de nós.

Miguel Torga, in O Senhor Ventura /1943

Mar Português - Mensagem/Fernando Pessoa

Avatar do autor António Góis, 23.05.20

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Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!


Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.


Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa/Mensagem

 

Italo Calvino a 0,90 Quilómetros por dia

Avatar do autor António Góis, 21.05.20

Vinte e dois dias depois de ter feito a encomenda, chegou finalmente a casa (via ctt) o primeiro livro encomendado durante a quarentena. Trata-se de Um Eremita em Paris, de Italo Calvino, autor muito cá de casa, mas que por qualquer misteriosa razão estava em falta no que a este volume diz respeito.

Italo Calvino, um eremita em Paris.jpg

   Não faço ideia por onde andou durante este tempo, nem porque levou vinte e dois dias a percorrer cerca de vinte quilómetros, mas se Calvino andou por estes dias a passear por Portugal, certamente que escolheu mal a altura. Contas feitas, andou menos de um quilómetro por dia.

Das informações que tinha sobre o livro, deduzi não se tratar de uma autobiografia, pelo menos não uma autobiografia no sentido literal a que estamos habituados. Mas Calvino nunca desilude, e por isso avancei para a compra.

O volume podemos dividi-lo em três partes, sendo que na primeira temos as Páginas Autobiográficas, na segunda Um Eremita em Paris, e na terceira a sua experiência americana, intitulada Diário Americano.

O Diário Americano está escrito em forma de cartas, e versa sobre a viagem de Calvino na américa entre novembro de 1959 e maio de 1960. Confesso que de todo o livro, esta foi a parte que mais me fascinou.

Calvino era um tipo que pensava e repensava as coisas. E, se em princípio jurara nunca escrever um livro sobre a América, a lucidez acabaria por vencer e acabou por o escrever em forma de diário. Mas, pensando melhor, decidiu não o publicar. Calvino, que não era fã do capitalismo americano, assumiu mesmo a sua militância no partido comunista italiano, muito embora por alturas desta viajem já o tivesse abandonado.

Os textos sobre a América, ficariam assim guardados até depois da sua morte em 1985.

São sobretudo textos de uma lucidez assombrosa, ora severos, ora irónicos, mas também não raras vezes benéficos. Neles Calvino relata as suas impressões sobre o modo de vida americano, analisa as cidades por onde vai passando, (ficou sobretudo encantado com a cidade de Savannah, chamando-lhe mesmo a mais bela cidade dos Estados Unidos), fala da cultura americana e das pessoas com quem contacta, e chega mesmo ás vezes a pôr em causa a sociedade americana.

O diário encontra-se também publicado em volume próprio pela Dom Quixote, e intitulado, Um Otimista na América.