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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

Italo Calvino a 0,90 Quilómetros por dia

Avatar do autor António Góis, 21.05.20

Vinte e dois dias depois de ter feito a encomenda, chegou finalmente a casa (via ctt) o primeiro livro encomendado durante a quarentena. Trata-se de Um Eremita em Paris, de Italo Calvino, autor muito cá de casa, mas que por qualquer misteriosa razão estava em falta no que a este volume diz respeito.

Italo Calvino, um eremita em Paris.jpg

   Não faço ideia por onde andou durante este tempo, nem porque levou vinte e dois dias a percorrer cerca de vinte quilómetros, mas se Calvino andou por estes dias a passear por Portugal, certamente que escolheu mal a altura. Contas feitas, andou menos de um quilómetro por dia.

Das informações que tinha sobre o livro, deduzi não se tratar de uma autobiografia, pelo menos não uma autobiografia no sentido literal a que estamos habituados. Mas Calvino nunca desilude, e por isso avancei para a compra.

O volume podemos dividi-lo em três partes, sendo que na primeira temos as Páginas Autobiográficas, na segunda Um Eremita em Paris, e na terceira a sua experiência americana, intitulada Diário Americano.

O Diário Americano está escrito em forma de cartas, e versa sobre a viagem de Calvino na américa entre novembro de 1959 e maio de 1960. Confesso que de todo o livro, esta foi a parte que mais me fascinou.

Calvino era um tipo que pensava e repensava as coisas. E, se em princípio jurara nunca escrever um livro sobre a América, a lucidez acabaria por vencer e acabou por o escrever em forma de diário. Mas, pensando melhor, decidiu não o publicar. Calvino, que não era fã do capitalismo americano, assumiu mesmo a sua militância no partido comunista italiano, muito embora por alturas desta viajem já o tivesse abandonado.

Os textos sobre a América, ficariam assim guardados até depois da sua morte em 1985.

São sobretudo textos de uma lucidez assombrosa, ora severos, ora irónicos, mas também não raras vezes benéficos. Neles Calvino relata as suas impressões sobre o modo de vida americano, analisa as cidades por onde vai passando, (ficou sobretudo encantado com a cidade de Savannah, chamando-lhe mesmo a mais bela cidade dos Estados Unidos), fala da cultura americana e das pessoas com quem contacta, e chega mesmo ás vezes a pôr em causa a sociedade americana.

O diário encontra-se também publicado em volume próprio pela Dom Quixote, e intitulado, Um Otimista na América.