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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

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O Grande Gatsby - F.Scott Fitzgerald

Avatar do autor António Góis, 07.07.20

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   Era eu muito mais novo e mais vulnerável do que sou hoje quando o meu pai me deu um conselho que desde então nunca mais me saiu da cabeça.

«Sempre que te apetecer criticar alguém», disse ele, «lembra‑te de que nem toda a gente neste mundo teve as mesmas vantagens que tu.»

E não acrescentou mais nada, mas como sempre tivemos, com toda a nossa reserva, uma invulgar capacidade de comunicar um com o outro, percebi que ele queria dizer muito mais. Ficou‑me, por conseguinte, uma tendência para reservar todos os meus juízos, hábito que me abriu as portas de muitas naturezas singulares e me tornou também vítima de não poucos maçadores profissionais.

mente anómala deteta e agarra com grande presteza esta qualidade, quando ela se manifesta numa pessoa normal, e foi assim que na faculdade me acusaram injustamente de ser um político, por estar a par das secretas angústias de tresloucados que nem sequer conhecia. A maioria das confidências não foi instigada por mim — não poucas vezes fingi sono, alheamento ou uma volubilidade hostil ao vislumbrar, por algum indício inequívoco, as revelações íntimas que se perfilavam no horizonte; porque as revelações íntimas dos jovens, ou pelo menos os termos em que eles as exprimem, são geralmente plagiadas e desfiguradas por evidentes omissões.

Reservar os juízos é uma questão de infinita esperança. Ainda hoje tenho um certo receio de deixar escapar alguma coisa se esquecer, como o meu pai presunçosamente sugeriu, e eu presunçosamente repito, que as noções básicas de decência são repartidas desigualmente à nascença.

F.Scott Fitzgerald, in O Grande Gatsby / 1925