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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

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O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

Avatar do autor António Góis, 14.07.20

O Retrato de Dorian Gray.jpg

   O atelier estava impregnado de um intenso perfume de rosas e, quando a ligeira brisa estival corria por entre as árvores do jardim, entrava pela porta aberta o cheiro forte dos lilases, ou o mais delicado odor do espinheiro róseo desabrochando.

Do canto do divã coberto de tecidos persas em que se estirava, fumando cigarro atrás de cigarro como era seu costume, Lord Henry Wotton vislumbrava apenas o brilho dos rebentos de um codesso da cor e doçura do mel, cujos ramos trémulos mal pareciam capazes de sustentar o fardo de uma tão fulgurante beleza; e, de vez em quando, as sombras fantásticas dos pássaros fugazes atravessavam as longas cortinas de seda selvagem estendidas frente à enorme janela, produzindo uma momentânea ambiência japonesa e levando‑o a pensar nesses pintores de Tóquio de pálidos rostos de jade que, através de uma arte necessariamente imóvel, procuram dar a impressão de ve‑
locidade e movimento.

O monótono murmúrio das abelhas zunindo entre a relva por aparar, ou circulando com uma fastidiosa insistência em redor dos espinhos empoeirados de ouro da madressilva rebelde, parecia tornar o sossego ainda mais opressivo. O distante bulício de Londres era como que o bordão de um órgão longínquo.

No centro da sala, assente num cavalete vertical, estava o retrato de corpo inteiro de um jovem extraordinariamente belo e, a uma curta distância, à sua frente, sentava‑se o próprio artista, Basil Hallward, cujo súbito desaparecimento alguns anos atrás provocara, na altura, muita celeuma e dera azo às mais estranhas conjeturas.

Oscar Wilde, in O Retrato de Dorian Gray / 1890