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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

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Afirma Pereira - António Tabucchi

Avatar do autor António Góis, 19.05.20

Afirma Pereira tê-lo conhecido num dia de Verão. Um magnífico dia de Verão, cheio de sol e de vento, e Lisboa resplandecia. Ao que parece, Pereira estava na redacção, não sabia que fazer, o director estava de férias, e ele via-se com o problema de preparar a página cultural, pois o Lisboa passara a ter uma página cultural, e tinham-lha confiado. E ele, Pereira, reflectia sobre a morte.

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Naquele belo dia de Verão, com a brisa atlântica acariciando as copas das árvores e o Sol a brilhar, com uma cidade que cintilava sob a sua janela, e um azul, um azul incrível, afirma Pereira, de uma limpidez que quase feria os olhos, ele pôs-se a pensar na morte. Porquê? Isso, Pereira não sabe dizer.

Fosse porque o pai, quando ele era miúdo, tinha uma agência funerária que se chamava Pereira A Dolorosa; fosse porque a sua mulher morrera tísica uns anos antes; fosse porque era gordo, sofria do coração, tinha a tensão alta e o médico lhe dissera que se continuasse assim não durava muito, o facto é que Pereira se pôs a pensar na morte, afirma.

E por acaso, por mero acaso, pôs-se a folhear uma revista. Era uma revista literária, que no entanto tinha também uma secção de filosofia. Uma revista de vanguarda, talvez, disto Pereira não tem a certeza, mas que tinha muitos colaboradores católicos. E Pereira era católico, ou pelo menos naquele momento sentia-se católico, um bom católico, mas havia uma coisa em que não conseguia acreditar na ressurreição da carne. Na alma sim, claro, porque tinha a certeza de possuir uma alma; mas toda a sua carne, aquelas banhas que envolviam a sua alma, pois bem, essa não, essa não voltaria a reviver, e também porquê?, interrogava-se Pereira.

Afirma Pereira / António Tabucchi - 1994