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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

Manuel da Fonseca, Um Escritor Entre a Arte e a Realidade

Avatar do autor António Góis, 15.04.20

Escrevia José Saramago no início do seu livro sobre o Alentejo, Levantado do chão (Caminho, 1980) «O que mais há na terra, é paisagem».

manuel da fonseca, um escritor entre a arte e a re

  Um dos escritores que melhor soube captar essa paisagem e transporta-la com arte para o cenário das suas histórias, foi sem dúvida, Manuel da Fonseca. Nascido em Santiago do Cacém (1911) partiu para Lisboa logo após os estudos primários e foi aí que frequentou o colégio Vasco da Gama, o liceu Camões e a Escola de Belas Artes. Periodicamente regressava a Santiago do Cacém.

Cedo começou a escrever sobre o Alentejo, contos e poemas, publicando alguns deles em jornais e revistas da época, casos de Vértice, O Diabo, Seara Nova, ou Sol Nascente, o que levaria Mário Dionísio a dizer que «Manuel da Fonseca nasceu para revelar o Alentejo». Procurou fugir à corrente Neo-Realista, nem sempre o conseguindo.

Numa das suas últimas entrevistas (jornal Expresso, 20-03-1993) dizia: «foram os críticos que acharam que eu era Neo-Realista. O Neo-Realismo foi uma coisa que o Joaquim Namora arranjou para fugir à censura».

O seu primeiro livro, Rosa dos Ventos (1940) foi de poemas e em edição de Autor. De salientar que um dos poemas deste livro, O Sol do Mendigo, (originalmente publicado no jornal o Diabo de 03 de julho de 1938) seria mais tarde gravado em disco pelo popular cantor Paco Bandeira. Olhai o vagabundo que nada tem/ e leva o sol na algibeira. Também em 1975, o cantor Adriano Correia de Oliveira viria a imortalizar o poema, Tejo que levas as águas, em disco.

Foi sobretudo com poemas e contos que primeiro se fez notar. O primeiro romance, Cerromaior, só viria a lume em 1943 publicado então pela editora Inquérito. Em 1951 saiu mais um livro de contos, O fogo e as cinzas, por muitos considerado a sua obra-prima. Sem dúvida alguma que nos contos deste volume está presente a genialidade de Manuel da Fonseca. Mestre da frase curta, eficiente e conclusiva, descrevia com enorme precisão um qualquer cenário enquanto nos contava simultaneamente a história do mesmo. E fazia-o em meia dúzia de frases.

O início do conto, O largo, é no mínimo épico: «Antigamente, o largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas, com casas em volta e uma rua que sobe para a vila. O vento dá nas faias e a ramaria farfalha num suave gemido. O pó redemoinha e cai sobre o chão deserto. Ninguém. A vida mudou-se para o outro lado da Vila».

No conto A Campaniça, do volume também ele de contos, Aldeia Nova (1942): «Valgato é terra ruim. Fica no fundo de um córrego, cercada de carrascais e sobreiros descarnados. O mais é terra amarela, nua até perder de vista. Não há searas em volta. Há a charneca sem fim, que se alarga para todo o resto do mundo. E, no meio do descampado, no fundo do vale tolhido de solidão, fica a aldeia de Valgato debaixo de um céu parado. Valgato é uma terra triste».

Muitas vezes acusado de retratar o Alentejo de uma forma sombria, quer na paisagem, quer nas gentes, contrapunha: «não é uma forma sombria, mas sim a verificação de uma realidade».

Em 1958 saiu aquele que viria a ser o seu maior romance, Seara de Vento, editado pela Ulisseia.

Este é sem dúvida um dos grandes romances Portugueses da segunda metade do século XX.

Sobre Seara de Vento falarei mais tarde noutro artigo.

Aquilino Ribeiro e o Regicídio de 1908

Avatar do autor António Góis, 13.04.20

   Posta de parte durante algumas décadas, a questão de Aquilino Ribeiro ter ou não participado no regicídio de 1908, reacendeu-se em 2007 quando se decidiu a trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.

Aquilino Ribeiro e o Régicídio de 1908.png

   Políticos e intelectuais da nossa praça, ameaçaram arrancar os cabelos e um ou outro ainda pensaram em ligar à comunicação social dizendo que se iriam atirar da ponte 25 de Abril.

Em abono da verdade, não existe qualquer prova de que Aquilino tenha participado no regicídio que vitimou o Rei D. Carlos e o seu filho, o Príncipe D. Luís.

Conta Raul Brandão no seu livro Memórias (Renascença Portuguesa, Porto, 1919) e também o próprio Aquilino em Um Escritor Confessa-se (Bertrand, 1974) que não estaria nos planos matar o Rei. O que Buiça e Costa tinham planeado era assassinar o Ministro João Franco, e para tal andavam havia três dias a tentar embosca-lo.

Como tal, nesse mesmo dia 01 de Fevereiro, ficara combinada uma emboscada ao Ministro na Avenida Alexandre Herculano. Conta Raul Brandão que Buiça e Costa terão perdido a hora a que o Ministro por ali passou, o que impossibilitou o ataque.

Resolvem então ir para o Terreiro do Paço onde se preparava a recepção ao Rei, certos de que João Franco mais tarde ou mais cedo, haveria de acabar por passar no local.

Seriam cinco, os regicidas. Domingos Ribeiro, Alfredo Costa, Manuel Buiça e mais dois elementos cujos nomes não foram referidos.

Em nenhuma das duas obras, quer na de Raul Brandão, quer na de Aquilino Ribeiro, é referido que Aquilino estivesse nesse dia no Terreiro do Paço. O que se refere, isso sim, é que nessa altura o mesmo se encontrava escondido numa casa na rua Nova do Almada em frente ao tribunal da Boa Hora, já que em 12 de Janeiro se havia evadido da prisão.

Afirma Aquilino que conspirou contra a Monarquia, e o facto de ter sido preso foi devido ao fabrico de bombas a serem utilizadas em atentados. No entanto, o regicídio não foi um atentado bombista.

É por demais sabido que Aquilino era um revolucionário. Que tinha ligações a Buiça, a Alfredo Costa e á Carbonária. O próprio, nunca o negou.

No meio de todo este processo, existem ainda hoje muitos buracos negros. O próprio processo desapareceu depois da implantação da Republica.

A verdade é que a ninguém pareceu querer levar até ao fim a empreitada. Nem Monarquia, nem República, nem o Estado Novo.

No entanto, da fama de Regicida, Aquilino Ribeiro nunca se livrou e o exílio em Paris, seria o passo seguinte.

   

João Tordo, manual de sobrevivência de um escritor

Avatar do autor António Góis, 11.04.20

Partindo das suas memórias do ofício, João Tordo esboça neste livro uma espécie de manual para todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita, sejam escritores a dar os primeiros passos ou leitores curiosos.

João Tordo, Manual de Sobrevivência de um Escrit

   Misturando humor e pragmatismo, memórias de vida e conselhos úteis, o autor abre as portas da sua actividade e da sua relação com a literatura e a vida a todos aqueles que experimentam a magia da ficção.
Esta viagem pelos meandros de um ofício que recusa deixar-se ensinar — e de muitas das suas vertentes e consequências, como a técnica, o enredo, as personagens, a edição, a crítica, o fracasso, a sobrevivência — é também uma incursão no lado mais íntimo de um escritor entregue à sua mais dilacerante paixão. Este volume percorre os autores, a tradição e o processo que fazem um autor, mas é também uma confissão dos tempos difíceis, das angústias e das dúvidas que assaltam sem piedade tanto os jovens escritores como os mais experimentados.
Manual de Sobrevivência de um Escritor é uma aventura pelo lado menos conhecido de uma forma de arte que encanta a Humanidade desde os seus primórdios. Com coragem e humildade, com ironia e sinceridade, João Tordo conduz-nos nesta viagem, cujas páginas gostariam de ser um guia (ou um amparo) para os amantes de literatura.

Nas livrarias a partir de 26 de maio

 

Quem escreve os livros de James Patterson?

Avatar do autor António Góis, 08.04.20

É um dos escritores mais bem pagos do mundo, lançando em média dez novos títulos todos os anos. Mas, afinal quem escreve os livros de James Patterson?

Quem escreve os livros de James Patterson.png

O assunto não é novo. Sempre existiram autores que apenas assinam os livros, sendo os mesmos escritos por outros. A novidade aqui, é mesmo haver um autor que o admita.

James Patterson sempre admitiu não ser ele a escrever os Best Sellers que saem para o mercado com o seu nome. Avança que a ideia normalmente é dele (diz ter guardadas religiosamente cerca de quinhentas ideias para romances), escreve uma sinopse da mesma, cerca de cinquenta páginas, e depois passa aos colaboradores (tem cerca de vinte) para que escrevam o livro.

Já publicou um livro escrito a quatro mãos com Bill Clinton ( O Presidente Desapareceu, Alfred A. Knopf e Little, Brown & Co, 2018 ) e apareceu também em episódios das series Os Simpsons e Castle, a interpretar o seu próprio papel.

Em Portugal, James Patterson é mais conhecido pelas séries de livros sobre o seu personagem Alex Cross e pela série Private, isto apesar de existirem por cá outros livros seus publicados.

Como disse atrás, o assunto não é novo. Alexandre Dumas (1802 - 1870) o escritor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, já utilizava este esquema para a feitura dos seus folhetins. Há até quem afirme que Os Três Mosqueteiros, foi todo ele escrito por August Maquet. Na sua época áurea, Dumas contou com mais de cinquenta escribas que desenvolviam as histórias dos seus folhetins.

Na actualidade, escritores como Nicholas Sparks, Nora Roberts e Danielle Steel, são por vezes também acusados de utilizar o mesmo esquema, embora nenhum deles jamais tenha confessado que o fazia..

E em Portugal?

Em Portugal, muito se falou há uns anos atrás, de que o jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos tinha por detrás dele uma equipa de redactores que lhe escrevia os livros. A notícia, no entanto, sempre foi desmentida pelo próprio.