Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

Entrevista com o Escritor João Cerqueira

Avatar do autor António Góis, 26.06.20

Hoje temos uma entrevista com o escritor João Cerqueira, Doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto e autor de oito livros, muitos deles premiados no estrangeiro. Desde já, o meu muito obrigado ao João pela disponibidade.

João Cerqueira.jpg

Em países democráticos, o escritor tem muito menos liberdade hoje do que há cinquenta anos.

António Góis - Sendo Licenciado em História da Arte, e sendo a História um tema quase sempre presente nos seus livros, o porquê da opção de uma abordagem histórica satírica, por vezes quase a roçar o nonsense, em algumas das suas obras?

João Cerqueira – O humor e a sátira fazem parte de mim. Ideias cómicas ou totalmente disparatadas, ocorrem-me amiúde. É como se tivesse um pequeno teatro humorístico dentro de mim, do qual sou o único espectador. Por vezes, rio-me sozinho, desato às gargalhadas e sou tomado por tolo. Por um lado, suponho que deve ser algo genético, por outro fui muito influenciado pelos Monty Python, pelos livros de Woody Allen, pelos filmes dos irmãos Marx e por Raul Solnado. Da literatura nacional, também recebi influências de Camilo e Eça que se fartavam de gozar com o pagode que é o nosso país. Abro aqui um parêntesis para dizer que, desde então, o humor quase desapareceu dos romances. O Neo-realismo matou-o. Poderá parecer pretensioso, mas atrevo-me a dizer que poderei ser o único escritor português que tenta recuperar essa tradição humorística que remonta a Gil Vicente e é continuada por Bocage, os referidos Eça e Camilo, Fialho de Almeida, ou Almada Negreiros.

A literatura portuguesa é muito bem comportadinha. Há regras e proibições que todos cumprem. 

António Góis – Acha que na literatura contemporânea portuguesa, os autores escrevem apenas para o politicamente correto, talvez com algum receio de serem excluídos do meio?

João Cerqueira - A literatura portuguesa é muito bem comportadinha. Há regras e proibições que todos cumprem. Por exemplo, se houver um personagem racista tem de ser obrigatoriamente branco; e se houver um rico, lá terá que ter feito alguma patifaria no passado.

O politicamente correcto é, pois, um dos rostos do Fascismo do século XXI e o maior inimigo da literatura e do cinema. Impõe, sob pena de ostracismo, que é proibido criticar ou satirizar qualquer cultura que não seja a ocidental – a única, justamente, que não prende ou persegue escritores. Se alguém criticar a Igreja é um progressista, mas se criticar o Islão é um islamófobo; se criticar o Capitalismo, revela sensibilidade social; se criticar, por exemplo, o regime da Venezuela, revela preconceitos; se criticar o casamento tradicional, manifesta um direito democrático, se criticar o casamento entre homossexuais é um atrasado mental. Isto não é mais do que uma ditadura com objectivos políticos – o ataque à democracia liberal e ao sistema de mercado – que faz lembrar as perseguições da Inquisição.

Na verdade, já começa a haver um Índex de livros e filmes blasfemos e autores a expiarem publicamente a sua culpa. A mais recente vítima destes Torquemadas foi a escritora J. K. Rowling. Ela teve o desplante de afirmar que só as mulheres têm menstruação e que as diferenças sexuais existem – algo que a ciência provou acontecer mesmo antes do nascimento. Que horror! Resultado: os inquisidores do politicamente correcto lançaram-na na fogueira. Em países democráticos, o escritor tem muito menos liberdade hoje do que há cinquenta anos. É vigiado e autocensura-se.

António Góis - Hoje a maioria dos seus livros já estão editados em Portugal e presentes nas livrarias portuguesas. Mas nem sempre foi assim. Por norma eram primeiro editados lá fora, ganhavam um prémio e só depois chegavam a Portugal. Hoje em dia o processo já foi invertido? Sente que começa a ser mais fácil editar por cá?

João Cerqueira - Na verdade comecei por ser publicado em Portugal e só depois, com A Tragédia de Fidel Castro (adaptada ao leitor americano com Dom Afonso Henriques a tornar-se JFK) entrei no mercado internacional. O que me deixa perplexo é que eu – português e minhoto, com arroz de sarrabulho, chouriças e alvarinho nos livros – escrevi para os leitores nacionais e, depois, são americanos, ingleses, italianos, alemães, espanhóis, argentinos, brasileiros, filipinos e australianos que mais valorizam os meus livros e contos.

Tive e tenho dificuldades em ser publicado em Portugal. O meu último romance 25 de Abril, corte e costura só foi aceite e publicado pela Alêtheia de Zita Seabra. Porém, os livros que foram rejeitados em Portugal pelas principais editoras – A Tragédia de Fidel Castro e A segunda vinda de Cristo à Terra – venceram prémios nos EUA. Eis um grande mistério.

António Góis - Falemos de A segunda vinda de Cristo à Terra, que nos Estados Unidos venceu o prémio, INDIE READER AWARD'S 2020 na categoria Humor. Sendo Portugal um País onde a maioria das pessoas são católicas, será que a abordagem que faz das figuras de Cristo e Madalena poderão de alguma forma ter prejudicado as vendas e a promoção do livro no nosso País?

João Cerqueira - Uma figura da Igreja muito importante em Viana do Castelo pela sua obra social e humanismo, o Padre Coutinho, divulgou-o no seu jornal da paróquia. Mas não duvido que alguns católicos com pouco sentido de humor tenham fugido do livro como o diabo da cruz. Na verdade, gostaria que o livro fosse lido por cristãos pois, apesar do humor e de Jesus tomar um banho num riacho com Madalena, pretendi homenagear a sua figura.

Como muitos historiadores afirmaram, o Cristianismo está na base dos direitos humanos, da igualdade entre os homens e da democracia. Na antiga democracia grega havia metecos e escravos. Jesus liberta-os e liberta também as mulheres da submissão ao homem – o que não aconteceu no Islão e no Judaísmo. Ele é a figura mais importante da humanidade e, como refiro no romance, se voltasse de novo á Terra, puxaria as orelhas a muitos padres e bispos.

António Góis - Em algumas das suas obras, a abordagem histórica é feita de forma diferente. Falo de, Maria Pia: Rainha e Mulher, e Arte e Literatura na Guerra Civil Espanhola. Sente que há mais ou menos aceitação nesta abordagem dos temas?

João Cerqueira – Esses livros não são ficção. Pertencem a uma parte da minha vida onde andava à procura do caminho da escrita. Depois de ter escrito uma tese de doutoramento com 400 páginas, não deverei voltar a escrever mais nada que me limite a imaginação.

António Góis - Quando da edição da obra, 25 de Abril corte e costura, lembro-me que cheguei a ver o livro em destaque em algumas livrarias. Acha que esta foi a obra que lhe trouxe o reconhecimento merecido em Portugal?

João Cerqueira – 25 de Abril corte e costura teve críticas muito boas na revista Deus Me Livro, na revista Entre as Artes e Letras – por parte do Professor Carlos Fiolhais - e em todos os blogues que o avaliaram. Todavia, nenhum dos principais jornais ou revistas sequer o mencionou – apesar de terem recebido cópias do livro -, sendo o único romance português que aborda a questão política actual e os temas que dividem a sociedade.

 Há uma barreira mediática, à qual aludi na entrevista no CM, que só depois da recente vitória no Indie Reader Awards começa a ser derrubada. De novo pergunto: o que vai na cabeça de um jornalista que ignora os prémios e as publicações no estrangeiro de um autor português? Que critério é que está a usar?

António Góis – Muito obrigado pela disponibilidade e para terminar: Qual o livro que a seguir vai chegar ás livrarias, e para quando?

João Cerqueira – Estou a trabalhar num manuscrito de um género que é muito apreciado nos Estados Unidos, a História Alternativa.

Crio um país imaginário – a Eslávia – cujo regime ditatorial cai com a queda do muro de Berlim. Não se trata, porém, de um romance político. É, sim, um romance sobre a culpa, a vingança e a possível redenção. Ou seja, como reagem alguns seres humanos quando caem em desgraça e como reagem outros seres humanos quando deles se podem vingar.

Estou a tentar prender o leitor desde a primeira página. O que sucederá a um personagem que foi preso ou qual o desfecho de um conflito? Procuro o inesperado, a surpresa. E vou deixando pontas soltas que, mais tarde, são unidas. A atitude que um personagem toma na página vinte poderá só ser entendida na página cem. Mas, no fim, tudo deverá fazer sentido.