Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

A última viagem de Steinbeck

Avatar do autor António Góis, 08.05.20

Corria o ano de 1960 quando John Steinbeck, então com 58 anos e já com graves problemas cardíacos, decidiu fazer a sua última viagem pela América.

John Steinbeck.jpg

   Contra a vontade do médico, da mulher e do filho, comprou uma auto - caravana a que chamou Rocinante, equipou-a com o que julgou necessário para a viagem, assobiou ao cão, um poodle francês chamado Charley, e partiu de Long Island para uma viagem de 10.000 milhas. 

Durante a viagem, Steinbeck passou pelas mais diversas peripécias, conheceu pessoas e teceu considerações ou recordou histórias dos locais por onde ia passando. A viagem viria a dar um livro, Viagens com o Charley publicado pela Vicking Press em 1962, pouco tempo antes de receber o Nobel da Literatura.

Durante muitos anos este foi um dos meus livros de viagem preferidos e ainda hoje, de quando em vez, volto a ele para reler uma ou outra passagem.

Há uns anos atrás, tive conhecimento de que um jornalista chamado Bill Steigerwald, havia escrito um livro intitulado Dogging Steinbeck (2012) em que constatava vivamente os acontecimentos narrados no livro, sugerindo mesmo que alguns nunca teriam tido lugar.

Entre outros argumentos, Bill Steigerwald anunciava que Stenbeck se teria encontrado nalgumas partes do percurso com a mulher, teria dormido em Hotéis e que não teria sequer parado em muitos dos locais de que fala no livro. No seu livro, Steinbeck relata esses encontros com a mulher. Relata também as paragens nos Hotéis. O próprio diz também ter passado por alguns lugares sem parar, o que não o impediu de tecer algumas considerações ou contar uma ou outra história sobre esses mesmos locais.

Qualquer Português que passe, por exemplo em Guimarães, mesmo sem parar não se impedirá certamente de comentar «foi aqui que D. Afonso Henriques fundou Portugal». Ignoro se John Steinbeck fez ou não tudo aquilo que relata no livro. Se não parou nos lugares que cita, pelo menos documentou-se muito bem sobre eles. Já este Dogging Steinbeck, de Bill Steigerwald, que por acaso parece não estar publicado em Portugal, mais parece ter sido escrito por alguém com um ódio de estimação por Steinbeck e que buscou aqui os seus 15 minutos de fama.

Bater em alguém que havia falecido há 44 anos, não parece correto. No entanto, por 15 minutos de fama, há até quem bata no Pai e na Mãe.

A Sombra do Vento, ou o Paradigma dos Personagens Solitários

Avatar do autor António Góis, 06.05.20

O paradigma dos personagens solitários. Se existisse uma frase para definir um livro como A Sombra do Vento, ( Carlos Ruiz Zafón, 2001 ) seria certamente parecida com esta.

A Sombra do Vento.jpg

   Mas livros deste calibre não se definem numa frase. São precisas mesmo muitas, para falar do Cemitério dos Livros Esquecidos, numa Barcelona onde os fantasmas da guerra espreitam nas nebulosas esquinas.

Escrito numa prosa que por vezes nos lembra os grandes mestres, (há aqui Dumas, há Poe e há sem dúvida algo de Vítor Hugo), existe no romance uma mistura de géneros que se encaixam tecendo uma história que se torna fascinante.

Tudo começa de madrugada, quando o pai leva Daniel Sempere com 11 anos ao cemitério dos livros esquecidos, uma espécie de biblioteca de obras abandonadas, e o rapazinho encontra ai um livro chamado A Sombra do Vento, escrito por um autor chamado Julian Carax. Começa aqui a busca por este autor misterioso que irá nortear a trajectória de Daniel durante a narrativa.

Paralelas á busca de Daniel por Julian Carax, movem-se outras histórias e outros personagens, às vezes transversais, às vezes paralelas no tempo.

É o caso do inspector Javier Fumero e de Fermín Romero de Torres, (um personagem ímpar na moderna literatura, herdeiro de um Sancho Pança) ambos em lados opostos da barricada, da história e da própria vida.

As personagens ímpares e o enredo apaixonante, fazem deste A Sombra do Vento um livro a ler e reler muitas vezes ao longo do tempo.

Não está ao alcance de qualquer escritor uma obra de tal envergadura, mas é por demais evidente que Carlos Ruiz Zafón não é qualquer um na arte do romance.

O início do livro é épico:
«Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos.»

Amazónia, de James Rollins

Avatar do autor António Góis, 05.05.20

Em Portugal, James Rollins é mais conhecido pelos seus livros da série Força Sigma, onde em cada romance se revelam mundos invisíveis, descobertas científicas e segredos históricos.

Amazónia, de James Rollins.png

   No Verão de 2019, chegou a Portugal um das suas obras fora desta série. Trata-se do livro intitulado Amazónia, e é uma daquelas obras que não conseguimos parar de ler até à ultima página.

Uma expedição científica embrenha-se no coração da exuberante floresta amazónica e desaparece sem deixar rasto. Do grupo fazia parte Gerald Clark, um ex-agente das Forças Especiais dos EUA que perdera o seu braço esquerdo na Guerra do Iraque. Subitamente, quatro anos volvidos, Gerald Clark reaparece. Saído da selva e a arder em febre, morre em poucas horas sem esclarecer como entrou naquele lugar selvagem apenas com um braço para de lá sair com os dois intactos.

Por isso, uma equipa de cientistas e de soldados, nomeados pelo governo dos Estados Unidos, é enviada para a Amazónia para desvendar o mistério que a reaparição de Clark colocava. Nathan Rand, filho do cientista que orientava a expedição científica, continua a manter a esperança de reencontrar o pai com vida. Essa expectativa reaviva-se quando Kelly O'Brien, membro da equipa de busca e salvamento, o convida para integrar o grupo e assim seguir o rasto do pai desaparecido.

Nas profundezas da selva, a natureza, e as suas mais imprevisíveis mutações, aguarda-os um mundo secreto de perigos inimagináveis...

Robinson Crusoé

Avatar do autor António Góis, 10.03.20

robinson crusoé, de Daniel DeFoe.png

   Não existindo hoje dúvidas de que o romance moderno nasceu com Dom Quixote de La Mancha em 1605, também não existirão certamente dúvidas de que Robinson Crusoé de Daniel DeFoe (1660 – 1731) publicado em 1719, foi o grande impulsionador do romance de aventuras de língua Inglesa.

   DeFoe inspirou-se nos relatos de viagens da época e também no naufrágio de um marinheiro Escocês, Alexander Selkirk, que teria vivido durante quatro anos numa ilha deserta. O acontecimento deu-se dez anos antes de DeFoe escrever as aventuras de Robinson Crusoé.

   Daniel Defoe escreveu três volumes sobre Robinson Crusoé. A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé, em 1719, Outras Aventuras de Robinson Crusoé, no mesmo ano, e um ano mais tarde, Reflexões Sérias ao Longo da Vida e das Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé.

   Nascido em Londres em 1660, escreveu Robinson Crusoé aos Cinquenta e Nove anos de idade depois de uma vida de comerciante e de jornalista. Na verdade, DeFoe foi mesmo o maior jornalista do seu tempo, tendo fundado o jornal periódico The Review praticamente sozinho. Na altura tinha como contemporâneos escritores como Alexander Pope (1688 – 1744) autor de Essay on Criticism (Ensaio sobre a crítica, 1711), e Essay on Man (Ensaio sobre o Homem, 1733), e também Jonathan Swift, (1667 – 1745) autor de As Viagens de Gulliver (1726).

   Para além de Robinson Crusoé, DeFoe escreveu outros romances como Moll Flanders (1722) e Colonel Jack também no mesmo ano. Em 1724 escreveu ainda o romance Roxana. Ao todo estima-se que tenha escrito mais de quinhentas obras entre história, biografia, romance, polêmicas políticas e religiosas, sátiras e poemas.

   Em Robinson Crusoé, DeFoe optou por colocar a voz narrativa na primeira pessoa como se de uma autobiografia se tratasse.

   Na primeira parte do livro, o herói (o jovem Robinson) é aconselhado pelo pai a dedicar-se ao negócio de família, coisa que ele ignora e acaba embarcando num navio em busca de aventura. É feito escravo, acaba por escapar e torna-se fazendeiro no Brasil. Em seguida mete-se no tráfico de escravos e acaba por naufragar na ilha.

   Por aqui se verifica que o jovem Robinson quer ser ele próprio a construir o seu destino, em vez de ficar em casa e ser apenas o herdeiro do negócio familiar. Nota-se aqui a sua rebeldia em relação à figura paternal. Mas, o que no início era apenas o desejo de aventura, acaba por tornar-se com o tempo no desejo de fazer fortuna, como sejam a plantação no Brasil e o tráfico de escravos.

   Na segunda parte, temos Robinson sozinho na ilha deserta. Aqui o tema é a solidão e a sobrevivência. Durante muitos anos Robinson não avista outros seres humanos e vai sobrevivendo na sua solidão. Um dia avista uma pegada humana na areia e a sua vida passa a ser dominada pelo medo. Robinson refugia-se no seu esconderijo e recusa sair.
   Quando por fim volta a visitar o local, apercebe-se de que os indígenas costumam visitar aquela parte da ilha para fazer banquetes com os seus prisioneiros.

   Um dia salva um dos prisioneiros a quem dá o nome de Sexta-feira e a partir dai Robinson tem pela primeira vez a companhia de um ser humano na ilha. Sexta-feira passa a ser o seu criado e juntos conseguem salvar mais dois prisioneiros e correr com os selvagens.
   Agora, além de ser dono e senhor da ilha, Robinson tem também criados. Ele é o rei, a ilha a sua colónia, e todos os outros existem para o servir. Corria assim a vida a Robinson quando aporta á ilha um navio Inglês que traz alguns piratas prisioneiros. Robinson liberta os piratas e com a ajuda destes, captura o barco.

   Na terceira parte, deixa a ilha a bordo do navio capturado, vinte e oito anos depois de ali ter naufragado e dirige-se para Inglaterra levando com ele Sexta-feira. Dali viaja até Lisboa para saber dos negócios que deixara no Brasil. Regressa em seguida a Inglaterra, desta vez viajando por terra. Casa, tem filhos, e retorna à ilha em visita. Dali parte então para o Brasil onde se estabelece.

   Nesta terceira e última parte, a Acão é acelerada por Defoe, os problemas são resolvidos em poucas páginas e o final fica em aberto com Robinson a falar em futuras aventuras.

   Hoje em dia, este e outros romances da altura são todos eles acusados de serem literatura colonial, mas na verdade não passam de romances que refletem a época em que foram escritos. O próprio DeFoe é considerado um pioneiro em Inglaterra no que ao realismo diz respeito, um autor que viria a influenciar os romancistas do Século XIX.

LOGO ESCRITA CRIATIVA.png

https://antoniogois123.wixsite.com/escritacriativa

 

 

Ernest Hemingway, uma vida (in)completa?

Avatar do autor António Góis, 07.03.20

ernest hemingway.jpg

 

    Ernest Hemingwa era um tipo duro. Aos 55 anos, quando recebeu o Nobel da Literatura já tinha sobrevivido a três guerras, dois acidentes de avião e quatro casamentos.

Pelo meio, foi condimentando a vida com Gin, Whisky e Rum quanto baste, em grandes caçadas em África, pescarias em Cuba, touradas em Espanha e festas em Paris. E literatura muita literatura.

De uma vida plena de aventuras saíram livros, muitos deles autênticos obras-primas.

Da experiência da Grande Guerra, tinha então apenas 19 anos, haveria de nascer o clássico «adeus às armas». Dos anos passados em Espanha, guerra civil incluída, ficariam para a história as obras «Fiesta» e «Por quem os sinos dobram». Sobre as caçadas em África haveria de escrever«As neves do Kilimanjaro» e dos tempos de Paris nasceria o livro «Paris é uma festa». E, quando se pensava que dali não surgiria mais

o velho e o mar, Ernest Hemingway, livraria lobo anada, eis que as pescarias em Cuba dão fruto e Hemingway escreve esse clássico dos clássicos que dá pelo nome de «O velho e o mar».

Temos, portanto aqui uma vida de aventuras, toda ela traduzida em livros, em grandes livros. Literatura pura e dura, como se quer. Aos 61 anos, olhando para trás e vendo que o tempo de aventuras terminara, recusou a monotonia que a vida lhe reservaria. 

Uma manhã levantou-se antes da mulher e foi ao local onde guardava as armas. Carregou a espingarda com que o Pai se suicidara e deu um tiro na cabeça.

Há tipos assim… duros até ao fim.

LOGO ESCRITA CRIATIVA.png

https://antoniogois123.wixsite.com/escritacriativa