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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

A Montanha Mágica - Thomas Mann

Avatar do autor António Góis, 10.07.20

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   No pino do Verão, um jovem simples partiu de Hamburgo, a sua cidade natal, para Davos‑Platz, no cantão de Graubünden. Ia de visita por três semanas.

De Hamburgo até àquelas alturas, é longa a viagem; demasiado longa, na verdade, para uma estada tão curta. Passa‑se por desvairadas terras, monte acima e monte abaixo, do planalto da Alemanha do Sul até lá abaixo, às margens do lago Constança, e, de barco, através das suas ondas saltitantes, atravessando gargantas antes tidas por intransponíveis.

A partir daí, a viagem que até então, se desenrolou com largueza, em linhas directas, torna‑se agitada. Há paragens e incómodos. Na povoação de Rorschach, em território suíço, toma‑se outra vez o comboio, mas só se chega, para já, até Landquart, uma pequena estação dos Alpes, onde se é obrigado a mudar de comboio.

O comboio para o qual se sobe, depois de bastante tempo à espera numa área ventosa e pouco atraente, é de bitola reduzida, e, no momento em que a pequena mas pelos vistos invulgarmente possante locomotiva se põe em movimento, começa a parte verdadeiramente aventurosa da viagem,uma subida abrupta e obstinada, que parece não querer ter fim.

É que a estação de Landquart situa‑se, comparativamente, ainda a uma altitude moderada; agora, porém, a viagem segue mesmo a sério por uma via agreste e medonha entre as escarpas, em direcção às altas montanhas.

Hans Castorp — é este o nome do jovem — encontrava‑se sozinho num pequeno compartimento forrado de cinzento, com a sua mala de mão de pele de crocodilo, um presente do seu tio e tutor, o cônsul Tienappel, para mencionar também este nome já aqui, o seu sobretudo, que balouçava pendurado num gancho, e a sua manta de viagem enrolada; ia sentado junto a uma janela aberta e, como a tarde ia ficando mais fresca, ele, filhinho da mamã e flor delicada, levantara a gola do
casaco de Verão, largo, segundo a última moda, e trabalhado em seda.

Thomas Mann, in A Montanha Mágica / 1924

Rumo ao Farol - Virginia Woolf

Avatar do autor António Góis, 23.06.20

   

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   — Sim, é claro, se amanhã estiver bom — disse Mrs. Ramsay — mas vais ter de te levantar com as galinhas — acrescentou.

Ao filho estas palavras comunicavam uma alegria extraordinária, como se ficasse assente que a expedição iria realizar-se, e eis que o fascínio a que aspirara, talvez por anos e anos, se achava, após as trevas de uma noite e a travessia de um dia, ao alcance da mão.

Como pertencia, apesar de somente com seis anos de idade, a esse grande clã que não consegue manter uma sensação separada da outra, mas tem de fazer com que os projectos futuros, com as suas alegrias e as suas mágoas, envolvam o que realmente se encontra ao nosso dispor, como para gente assim, mesmo na primeira infância, qualquer volta da roda das sensações tem o poder de cristalizar ou transfixar o momento sobre o qual repousa a sua sombra ou sua refulgência, James Ramsay, sentado no chão a recortar figuras do catálogo ilustrado dos Army and Navy Stores, atribuía à figura de um frigorífico, enquanto a mãe falava, um êxtase celestial.

E a figura ficava circundada de alegria, o carrinho de mão, o aparador da relva, o rumor dos choupos, folhas que branqueavam antes da chuva, gralhas que grasnavam, vassouras que chocavam, vestidos de seda que rugiam — todas estas coisas lhe ficavam tão coloridas e distintas no espírito que já tinha o seu código privativo, a sua linguagem secreta, embora parecesse o retrato da severidade rígida e inflexível, com a testa alta e os cruéis olhos azuis, impecavelmente cândido e puro, levemente franzindo o sobrolho à vista da fragilidade humana, de tal forma que a mãe, vendo-o conduzir com destreza a tesoura em torno do frigorífico, o imaginava todo de vermelho e carmim no Bench, ou dirigindo um empreendimento sério e urgente em qualquer crise dos negócios públicos.
   — Mas — disse o pai, detendo-se defronte da janela da sala — não vai estar bom.

Virginia Woolf, in Rumo ao Farol / 1927

A Sombra do Vento, ou o Paradigma dos Personagens Solitários

Avatar do autor António Góis, 06.05.20

O paradigma dos personagens solitários. Se existisse uma frase para definir um livro como A Sombra do Vento, ( Carlos Ruiz Zafón, 2001 ) seria certamente parecida com esta.

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   Mas livros deste calibre não se definem numa frase. São precisas mesmo muitas, para falar do Cemitério dos Livros Esquecidos, numa Barcelona onde os fantasmas da guerra espreitam nas nebulosas esquinas.

Escrito numa prosa que por vezes nos lembra os grandes mestres, (há aqui Dumas, há Poe e há sem dúvida algo de Vítor Hugo), existe no romance uma mistura de géneros que se encaixam tecendo uma história que se torna fascinante.

Tudo começa de madrugada, quando o pai leva Daniel Sempere com 11 anos ao cemitério dos livros esquecidos, uma espécie de biblioteca de obras abandonadas, e o rapazinho encontra ai um livro chamado A Sombra do Vento, escrito por um autor chamado Julian Carax. Começa aqui a busca por este autor misterioso que irá nortear a trajectória de Daniel durante a narrativa.

Paralelas á busca de Daniel por Julian Carax, movem-se outras histórias e outros personagens, às vezes transversais, às vezes paralelas no tempo.

É o caso do inspector Javier Fumero e de Fermín Romero de Torres, (um personagem ímpar na moderna literatura, herdeiro de um Sancho Pança) ambos em lados opostos da barricada, da história e da própria vida.

As personagens ímpares e o enredo apaixonante, fazem deste A Sombra do Vento um livro a ler e reler muitas vezes ao longo do tempo.

Não está ao alcance de qualquer escritor uma obra de tal envergadura, mas é por demais evidente que Carlos Ruiz Zafón não é qualquer um na arte do romance.

O início do livro é épico:
«Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos.»

Seara de Vento, de Manuel da Fonseca

Avatar do autor António Góis, 28.04.20

Manuel da Fonseca costumava dizer que reescreveu por três vezes Seara de Vento. Qualquer das versões era mais longa que a versão que viria a ser publicada.

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   No fim, foi preciso cortar deliberadamente algumas partes, para conseguir assim adensar o romance dando-lhe o ritmo mais vivo que idealizara para a obra. Originalmente tinha dado ao manuscrito o título de Tempo de Lobos, mas ao saber que Aquilino Ribeiro ia publicar um romance intitulado Quando os lobos uivam, resolveu mudar o título para Seara de Vento.

Seara de Vento deve ser entendido antes de mais como uma denúncia. A obra baseia-se no assassinato do camponês António Dias Matos pela GNR no ano de 1932, na Aldeia de Trindade, Baixo Alentejo. Manuel da Fonseca apenas muda aqui o nome aos personagens. Surge então o marginalizado Palma, que encarna o camponês que na época não caia nas boas graças do Latifundiário local. Não fora pela escrita de Manuel da Fonseca, a verdadeira história teria ficado por contar, como por contar ficaram as histórias de outros Palmas espalhados por todo o País, já que na altura só surgiu nos jornais a versão do regime.

Uma das características de Manuel da Fonseca, era esta. Ao longo da sua obra sempre tentou dar voz aos sem voz, escrevendo a história dos sem história, e nesse campo, Seara de Vento é talvez uma bandeira levantada bem alto num tempo em que se não podiam levantar bandeiras. E isso acabaria por trazer-lhe alguns dissabores, quer com a censura, quer com a polícia política do regime, porque tal como Redol fizera no Ribatejo, ele trouxe também para as luzes da ribalta os excluídos da sociedade, aqueles que no latifúndio tentavam sobreviver entre a miséria e a paisagem.

Seara de Vento relata pois a história mil vezes repetida, mas sempre renovada, do camponês que não verga ao agrário. É acusado de roubo, nunca mais consegue trabalho, mete-se no contrabando para conseguir alimentar a família e por causa disso a mulher é presa e suicida-se na prisão. Mata o agrário da zona, causador de todos os seus males, e em seguida com os filhos e a sogra, mete-se no casebre armado de uma espingarda onde espera o assalto final da GNR.

A escrita de Manuel da Fonseca, sendo na sua maioria sobre a temática rural, foge no entanto ao folclorismo, aspecto que seduziu alguns outros autores. Em Seara de Vento destaca-se (para além do vento que acompanha toda a obra) a personagem de Amanda Carrusca, a sogra do Palma, talvez a personagem mais bem conseguida do romance.

Ainda hoje, por sobre a planície Alentejana, pairam certamente os fantasmas dos Palmas e das Amandas Carruscas do passado, talvez esperando em vão um ajuste de contas que a história lhes continua a negar. Afinal, eles eram os sem história e não fosse por escritores como Manuel da Fonseca, nunca ouviríamos falar deles.