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António Góis

Livros, Autores e tudo à volta

António Góis

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Seara de Vento, de Manuel da Fonseca

Avatar do autor António Góis, 28.04.20

Manuel da Fonseca costumava dizer que reescreveu por três vezes Seara de Vento. Qualquer das versões era mais longa que a versão que viria a ser publicada.

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   No fim, foi preciso cortar deliberadamente algumas partes, para conseguir assim adensar o romance dando-lhe o ritmo mais vivo que idealizara para a obra. Originalmente tinha dado ao manuscrito o título de Tempo de Lobos, mas ao saber que Aquilino Ribeiro ia publicar um romance intitulado Quando os lobos uivam, resolveu mudar o título para Seara de Vento.

Seara de Vento deve ser entendido antes de mais como uma denúncia. A obra baseia-se no assassinato do camponês António Dias Matos pela GNR no ano de 1932, na Aldeia de Trindade, Baixo Alentejo. Manuel da Fonseca apenas muda aqui o nome aos personagens. Surge então o marginalizado Palma, que encarna o camponês que na época não caia nas boas graças do Latifundiário local. Não fora pela escrita de Manuel da Fonseca, a verdadeira história teria ficado por contar, como por contar ficaram as histórias de outros Palmas espalhados por todo o País, já que na altura só surgiu nos jornais a versão do regime.

Uma das características de Manuel da Fonseca, era esta. Ao longo da sua obra sempre tentou dar voz aos sem voz, escrevendo a história dos sem história, e nesse campo, Seara de Vento é talvez uma bandeira levantada bem alto num tempo em que se não podiam levantar bandeiras. E isso acabaria por trazer-lhe alguns dissabores, quer com a censura, quer com a polícia política do regime, porque tal como Redol fizera no Ribatejo, ele trouxe também para as luzes da ribalta os excluídos da sociedade, aqueles que no latifúndio tentavam sobreviver entre a miséria e a paisagem.

Seara de Vento relata pois a história mil vezes repetida, mas sempre renovada, do camponês que não verga ao agrário. É acusado de roubo, nunca mais consegue trabalho, mete-se no contrabando para conseguir alimentar a família e por causa disso a mulher é presa e suicida-se na prisão. Mata o agrário da zona, causador de todos os seus males, e em seguida com os filhos e a sogra, mete-se no casebre armado de uma espingarda onde espera o assalto final da GNR.

A escrita de Manuel da Fonseca, sendo na sua maioria sobre a temática rural, foge no entanto ao folclorismo, aspecto que seduziu alguns outros autores. Em Seara de Vento destaca-se (para além do vento que acompanha toda a obra) a personagem de Amanda Carrusca, a sogra do Palma, talvez a personagem mais bem conseguida do romance.

Ainda hoje, por sobre a planície Alentejana, pairam certamente os fantasmas dos Palmas e das Amandas Carruscas do passado, talvez esperando em vão um ajuste de contas que a história lhes continua a negar. Afinal, eles eram os sem história e não fosse por escritores como Manuel da Fonseca, nunca ouviríamos falar deles.